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“A extrema-direita pode sorrir”, por Olavo Soares

6 de dezembro de 2016

O ecologista Alexander Van der Bellen venceu as eleições presidenciais da Áustria, realizadas no domingo (4). Ele derrotou Norbert Hofer, nome da extrema-direita, cuja popularidade assustou muita gente – temia-se que Hofer vencesse as eleições e continuasse, assim, uma tendência mundial que se viu com os triunfos de Donald Trump nos EUA e do ‘Brexit’ no Reino Unido.

Hofer não ganhou, mas deixou um estilo que merece ser debatido. Ele defendia a agenda típica da extrema-direita: fortalecimento das tradições e combate às políticas migratórias. Porém, com um traço distintivo ao de outros líderes similares, como a francesa Marine Le Pen e o já citado Trump: Hofer é risonho. É simpático. Sua campanha foi feita em um ambiente “para cima”, e não com o clima de terror habitualmente atribuído a essa linha ideológica.

Uma passada pelo perfil de Hofer no Instagram mostra o espírito. Nele, o militante da extrema-direita aparece ao lado da esposa; posando em frente a uma paisagem; em uma das poses mais típicas de executivo, com o paletó jogado por cima do ombro; e até mesmo dirigindo um trator, em uma imagem cuja legenda destaca o fato de o ato não ser elitista.

O estilo “simpático” de Hofer foi destacado em artigos da imprensa internacional que analisaram a eleição austríaca – muitos textos exploravam justamente o contraste entre a linha-dura programática e o homem risonho que a defendia. Com destaque especial para a bengala que Hofer precisa usar, em consequência de um acidente sofrido em 2003, e que ajuda a compor seu perfil com um quê de bonachão.

A trajetória de Hofer faz lembrar, guardadas as devidas proporções, a história contada pela campanha vitoriosa do “No” (não) no plebiscito do Chile em 1988 (embora com sinal ideológico trocado). Na ocasião, o Chile fez uma votação democrática para decidir se o ditador Augusto Pinochet continuaria no cargo. A campanha do “não” surpreendeu muita gente – inclusive seus partidários – ao apostar numa linha festiva, irreverente, em vez de tentar convencer a população elencando as atrocidades cometidas por Pinochet. O caso é muito bem contado no filme “No”, de 2012.

O exemplo que Hofer deixa é que, num mundo de transformações e perfis tão complexos, estereótipos não se encaixam mais – nem mesmo nos extremos.

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