AV Comunicação | “Candidatos franceses de olho na imagem internacional”, por Olavo Soares
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“Candidatos franceses de olho na imagem internacional”, por Olavo Soares

31 de março de 2017

Falar sobre o próprio país não é o suficiente na corrida presidencial da França. A agenda externa também faz parte da rotina de campanha dos candidatos a chefiar um dos países mais importantes do mundo. Tudo bem que a disputa está cada vez mais previsível – a vitória de Emmanuel Macron é tida como certa pelas pesquisas – mas, ainda assim, é preciso cumprir os ritos da candidatura, e entre eles está o diálogo com forças do exterior.

O favoritíssimo Macron se encontrou nessa semana com o prefeito de Londres, Sadiq Khan. O diálogo entre ambos foi marcado pela defesa de uma agenda mútua entre França e Inglaterra, em tempos de Brexit. Khan, de origem paquistanesa, foi um grande opositor da saída da Inglaterra da União Europeia, e Macron também criticou a decisão dos britânicos. O prefeito fez, na reunião, uma defesa enfática da integração entre as nações: “é possível ser, ao mesmo tempo, um londrino e um cidadão francês”. Ponto para Macron, que busca crescer entre os eleitores da esquerda.

Já o candidato oficial do governo Hollande, Benoit Hamon, foi à Alemanha para se encontrar com a chanceler Angela Merkel e com lideranças de esquerda do país. Resumiu seu encontro com Merkel com uma sentença que é, acima de tudo, uma mensagem de estímulo ao seu frágil eleitorado: “partilhamos nossas convergências sobre defesa e energia, e nossas divergências sobre austeridade”. Ou seja: reconhecimento das virtudes da potência, mas sem aderir a políticas controversas à esquerda. Por outro lado, o antigo favorito das eleições, o direitista François Fillon, foi mais comedido, mas marcou posição: publicou em seu site uma nota de solidariedade à população de Londres, por conta do atentado ocorrido há alguns dias em frente ao parlamento local.

Mas a “parceria” internacional mais inusitada foi a feita pela segunda colocada na corrida, a ultradireitista Marine Le Pen. Em meio à corrida presidencial, Le Pen foi ao Chade, uma ex-colônia francesa com mais de 13 milhões de habitantes e um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo. A justificativa de Le Pen para a visita foi firmar discussões com o presidente local, Idriss Déby, sobre o combate ao terrorismo. Chama a atenção o fato de Déby estar no poder desde 1990 e seu regime ser rotineiramente acusado de violar os direitos humanos. A situação, aliás, rendeu críticas dos próprios apoiadores de Le Pen, que condenaram o encontro entre ela e um ditador.

A condição cosmopolita e a força inegável da França tornam a eleição no país um tema de interesse global. Até aí, nenhuma novidade; o curioso é ver como os próprios candidatos têm ciência dessa situação e trabalham isso como arma eleitoral. Nenhuma oportunidade pode ser desperdiçada – ainda que envolva um ditador no meio do caminho.

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