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“Itália pode cortar pela metade os salários dos parlamentares”, por Olavo Soares

25 de outubro de 2016

Começou a tramitar nessa semana, na Itália, um projeto de lei que prevê a redução pela metade dos salários de todos os parlamentares do país. A proposta é assinada pelo Movimento 5 Stelle, partido de cunho ‘alternativo’ liderado pelo ator/humorista Beppe Grillo. A razão do projeto é exatamente aquela que poderíamos imaginar: num país em que a economia precisa se desenvolver, não faz sentido pagar pesados valores aos políticos. O 5 Stelle diz que já executa a ideia na prática – seus parlamentares destinam metade dos salários a entidades de empreendedorismo e financiamento de pequenas empresas.

A atitude do 5 Stelle soa indiscutivelmente nobre. É, também, traiçoeira – o partido tem usado a proposta como bandeira para se diferenciar ainda mais das outras legendas, criando uma armadilha que colocará como insensíveis inimigos do povo os que não abraçarem a causa (sim, também na Itália há o sentimento de que políticos recebem muito e entregam pouco à sociedade). Um dos deputados da legenda, Roberto Fico, foi direto e reto em um discurso: “a verdade é que vocês (opositores à ideia) não tem a coragem de dizer aos cidadãos italianos que vocês querem ter esse dinheiro nos seus bolsos!”.

Mas como tudo na política tem mais de um lado, é preciso compreender o que pode estar por trás da proposta. O 5 Stelle, como já dito, é um partido auto-definido como alternativo. Incorpora um discurso já habitual em todas as democracias, aquele que aponta a política tradicional como algo defasado e corrupto em sua essência, e por isso precisaria de um “chacoalhão” para atender aos cidadãos. A prefeita de Roma, Virginia Raggi, é integrante do 5 Stelle. O partido tem crescido a cada eleição e deve ser competitivo a próxima disputa presidencial.

Ao defender o corte pela metade nos salários dos políticos, o 5 Stelle advoga para si uma ‘nobreza’ difícil de rebater. Afinal, quem vai publicamente se posicionar contra a redução de gastos com a política? Por tudo isso, é preciso que se interprete a proposta mais como um jogo político do que uma ideia somente em prol do país.

De todo modo, é algo que vai pautar muitos debates na Itália. E se vingar, no restante do mundo.

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