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Não há caminho fora da política numa democracia

24 de junho de 2019

Por Adriana Vasconcelos

A política é o caminho que a humanidade encontrou para viabilizar consensos, sejam totais ou parciais, respeito às diferenças e minorias, a despeito da vontade da maioria. Uma sociedade realmente democrática tem de ter espaço para todos. Mas nos últimos tempos, de tantas certezas e julgamentos sumários, algumas pessoas estão tendo quase que se desculpar por existir ou discordar do senso comum.

No último fim de semana, acordei pensando na minha trajetória profissional. Nestes 32 anos de jornalismo, sete campanhas presidenciais, cinco anos acompanhando o dia-a-dia do Palácio do Planalto e pelo menos duas décadas dentro do Congresso Nacional convivendo com lendas da velha e nova política brasileira, se é que possamos dividir a história dessa forma.

 

Quando olho para trás, penso que passou muito rápido. Mas aí lembro dos incontáveis plantões, das inúmeras viagens pelo Brasil e pelo mundo, que me levaram a conhecer os 27 estados do país e lugares que nunca imaginei conhecer, como base brasileira na Antártica, o bairro de Soweto em Johanesburgo, na África do Sul, e o salão de banquetes da Rainha Elizabeth no Palácio do Buckingham, na Inglaterra.

Vi de perto ícones da política mundial, de diferentes matizes, como Nelson Mandela, Bill Clinton, Yasser Arafat, Fidel Castro.

Assisti a roda do Poder girar várias vezes na minha frente e pude perceber que quem está em cima, na maioria das vezes, se sente tão poderoso que não percebe quando ela se move e o leva para baixo. Quase sempre inebriados pela força do cargo que exercem. Muitos se perdem na soberba. Outros se frustram por não conseguir fazer aquilo que inicialmente gostariam.

Os desafios da democracia

Poucos compreendem que, na democracia, nada é fácil. As críticas, os tropeços e os erros são inevitáveis, por mais boa intenção que se tenha. Pois super-heróis simplesmente só existem na ficção.

Nasci em pleno regime militar. Só descobri de fato o que isso significava quando entrei na UnB para cursar jornalismo em 1984, aos 17 anos recém completados. E logo no primeiro semestre vi o campus ocupado por militares armados, alguns acompanhados de cachorros, para reprimir alunos que ousavam desafiar o governo militar e pregar eleições diretas para a Presidência da República.

Com os anos e me aproximando aos poucos do dia-a-dia da política brasileira, percebi que as mudanças no país são lentas, mas devem ser comemoradas. Não encontrei nenhum santo, mas não posso dizer que só encontrei bandidos. Por mais pecados que alguns desses políticos tenham, é um erro criminalizar a política ou jogas todos da vala comum. Como muitos têm feito ultimamente.

Também constatei que ninguém chega ao Poder sem fazer concessões, pois isso é inerente em qualquer democracia. O fato é que os consensos são quase sempre exceção e não a regra. É o preço da nossa liberdade de opinião.

Qual o papel dos jornalistas na atual conjuntura?

No atual cenário político, de radicalismos extremos e em meio a denúncias sem fim de corrupção, falta de ética e espírito público, questiono o meu papel, ainda que pequeno, nesta conjuntura de desânimo geral.

Em tempo de redes sociais frenéticas, ódios exacerbados sob a proteção do anonimato e de generalizações que jogam todos agentes envolvidos na política numa vala, o que fazer?

Minha opção tem sido trabalhar na formação de novos quadros que gostariam de ter espaço na política para tentar fazer diferente. Quis o destino que eu me dedicasse sobretudo a mulheres, que, assim como eu, sabem bem o que é enfrentar o preconceito, o machismo e o assédio até conquistar o respeito em ambientes dominados por homens.

E nessa linha, agora me vejo olhando novas gerações, que precisam de orientação para viabilizar parte de seus planos de transformar o mundo. Um desafio e tanto, pois a juventude é fase de sonhar, ser rebelde e defender utopias. Até aprendermos com os anos que, com inteligência emocional e experiência política, é possível atingir nossas metas, sem ter de destruir pontes ou agredir quem quer que seja. E principalmente, sem abrirmos mãos de nossos princípios, nem perdermos a coerência de discurso.

O jornalismo me atraiu quando jovem por conta da possibilidade de ser uma testemunha privilegiada da história do Brasil e do mundo em que vivemos. Com o passar dos anos, vi que meu trabalho poderia ajudar a corrigir os rumos do que acontecia diante dos meus olhos. Agora, penso em compartilhar essas experiências para que os chegam ao mercado, do jornalismo ou da política, encurtem o caminho para alcançarem seus objetivos.

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