AV Comunicação | “O ar-condicionado foi a única coisa padronizada no debate da França”, por Olavo Soares
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“O ar-condicionado foi a única coisa padronizada no debate da França”, por Olavo Soares

5 de maio de 2017

A eleição na França já está quente e o debate ocorrido na quarta-feira (3) entre o centrista Emmanuel Macron e a direitista Marine Le Pen serviu para deixar a temperatura ainda mais elevada. Mas apenas em termos metafóricos: no estúdio em que o debate se deu, o ar-condicionado estava ajustado a 19 graus, sem possibilidade de mudança. A decisão foi tomada em comum acordo entre os dois candidatos.

O ajuste do ar-condicionado – numa temperatura mais fria que a habitual; o habitual aqui no Brasil é usar 23ºC – mostrou um ponto de pacificação e “pasteurização” que não se repetiu no restante do debate. Para nós, brasileiros, assistir a um debate presidencial de outro país é um choque. Saem as regras estáticas que engessam o que vemos aqui e entra um sistema com interrupções, candidatos sentados à mesma mesa, moderadores com mais funções além de falar “o tempo, candidato” e, por consequência, encontra-se ali um debate no sentido estrito do tema. Em palavras mais simples, o bicho realmente pega.

Os diferentes enquadramentos e a disposição da mesa criam ainda outro componente diferente do que vemos no Brasil. Na França, Macron e Le Pen se encaram, emitem sinais um ao outro, tentam conquistar a atenção e derrotar o oponente. Assim, acabam indo em uma mão bem oposta ao que costuma se dizer no Brasil: a ideia de que o debate é feito para dialogar com o eleitor, e não com o adversário. Le Pen e Macron pareciam mais preocupados um com o outro do que com quem via pela televisão (ou internet).

As regras para os debates brasileiros tiveram a intenção nobre de prevenir que determinados candidatos sejam favorecidos pelas transmissões televisivas. Mas acabaram resultando em espetáculos sem-graça. Que o exemplo francês estimule mudanças.

PS: Em sua primeira intervenção no debate, Emmanuel Macron disse que Marine Le Pen é a “candidata do medo”. Por ter medo dos desafios econômicos globais, por não garantir o protagonismo da França, Le Pen prefere excluir o Brasil dos fóruns internacionais. Abordagem interessante. Em vez de tocar nos pontos fracos já sabidos da candidata (xenofobia, racismo, etc), Macron foi a algo talvez mais sensível ao seu eleitorado.

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