AV Comunicação | “O mito da imparcialidade, o problema da torcida e as eleições dos EUA”, por Olavo Soares
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“O mito da imparcialidade, o problema da torcida e as eleições dos EUA”, por Olavo Soares

8 de novembro de 2016

A eleição de Barack Obama à presidência dos EUA em 2008 não foi uma vitória convencional. O fato de Obama ser o primeiro negro a chegar à Casa Branca e de propor uma política oposta à de George W. Bush, caracterizada por guerras e invasões de países, foi interpretado como um grande sinal de esperança – e por isso, contou com uma adesão quase que unânime em todo o mundo, incluindo o Brasil.

Momento similar se vê nas eleições americanas de agora. Mas, dessa vez, não é tanto o perfil do candidato apoiado que motiva a adesão. Como Donald Trump tem características que o tornam digno de ser comparado a um vilão de cinema, torcer por Hillary Clinton é torcer pelo combate à intolerância e à violência que o republicano representa. E é assim que a imprensa brasileira tem agido.

Essa imparcialidade não necessariamente é um problema, cabe ressaltar. Os jornalistas aprendem logo nos primeiros meses de faculdade que a imparcialidade é um mito. Jornalistas não conseguem e nem devem ser imparciais; são seres humanos e, portanto, têm suas opiniões sobre qualquer coisa que lhes passar pela frente. Mais do que buscar ser imparcial, cabe ao bom jornalista ser independente – ou seja, conduzir seu trabalho de apuração e divulgação dos fatos de maneira alheia à sua opinião, garantindo ao leitor informação de qualidade. E essa independência não tem sido violada na cobertura de agora. Denúncias contra Hillary, como o controverso episódio dos emails, receberam bom espaço no jornalismo brasileiro.

Mas, ainda assim, o episódio pode motivar uma boa reflexão. Principalmente porque o que se vê na cobertura da disputa dos EUA não se identifica – nem de longe – quando o objeto das análises é a política nacional. Com exceção de veículos nitidamente ideológicos (e que falam a públicos estratificados), a grande imprensa brasileira não abraça ou rejeita alguma candidatura como está fazendo agora no caso de Hillary e Trump.

A distância ajuda, é claro. Afinal, os EUA são outro país, outra realidade, e esse espaçamento deixa os jornalistas mais à vontade para expressarem seus pontos de vista. Mas como reagiríamos se o descrito ocorresse no nosso país?

Talvez traçar uma separação entre torcida e trabalho jornalístico seja o maior desafio a ser superado. Ainda que um dos lados na disputa seja representado por um vilão dos mais malvados.

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