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“Vitória das maçãs sobre os ratos”, por Olavo Soares

27 de setembro de 2016

Em tempos de ‘Brexit’ e de planos para um muro entre EUA e México, uma outra notícia de caráter nacionalista acabou não recebendo muitos holofotes. Foi a vitória do “Prima i Nostri” (“Primeiro os Nossos”, em italiano) em um referendo realizado na região suíça do Ticino no último domingo (25).

A proposta avaliava se a lei suíça deveria ser modificada para privilegiar trabalhadores locais em detrimento de estrangeiros. A situação é relevante principalmente no Ticino, que faz fronteira com a Itália e recebe diariamente milhares de italianos que fazem bate-e-volta em busca de emprego ou mesmo se mudam em definitivo para o país. Lá há, em decorrência disso, um cenário que se repete em muitos outros locais: os oriundos do país mais “pobre” aceitam ganhar salários mais baixos, o que tiraria oportunidades dos nativos da nação “rica”.

A campanha pela vitória do “Prima i Nostri” apostou em metáforas e imagens fortes para convencer os cidadãos. O logotipo oficial da causa foi uma maçã, vermelha como a bandeira do país, com a cruz suíça ao meio. Em muitos materiais de campanha, essa maçã aparecia em uma árvore, frondosa, porém sob riscos de ser atacada por oponentes impiedosos. E aí entram em cena os vilões da história: os ratos. Roedores foram a principal estrela dos materiais a favor do “Prima i Nostri”. Eles apareciam devorando um queijo suíço e assando um urso vestido com uma camiseta da Suíça, por exemplo. Na representação mais comum, os ratos estavam em forma de trio: dois ostentavam a bandeira da Itália e o terceiro, da União Europeia – cabe lembrar que a Suíça não integra o bloco de países.

A campanha de terror deu certo, e o “Prima i Nostri” venceu com 55% dos votos. A vitória, porém, pode ficar sem resultados práticos – o referendo é apenas o primeiro passo para a implementação da legislação, e ao longo dos próximos meses as instâncias superiores podem barrar a preferência aos trabalhadores suíços. De todo modo, é curioso para nós brasileiros ver a Itália colocada na posição de país-pobre-exportador-de-mão-de-obra-barata, ainda mais por ser uma das nações mais procuradas pelos refugiados de Ásia e África.

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